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CEO do Banco dos Brics: "Brasil vai virar a Arábia Saudita dos alimentos"



Marcos Troyjo esteve em Vitória e disse acreditar que o forte crescimento de China e Índia vão beneficiar muito o Brasil, que deve ver sua renda cresce

Marcos Troyjo, presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), mais conhecido como Banco dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), esteve em Vitória na semana que passou em evento realizado pela consultoria Vieira & Rosenberg e Valor Investimentos. Embora reconheça que o momento seja de muitas turbulências, ele está otimista. "Esse tipo de cenário internacional que se descortina é muito favorável para o Brasil. O mundo vai precisar de comida e infraestrutura".

Troyjo faz, entretanto, um alerta sobre as necessárias reformas estruturantes. "O Brasil pode se reconfortar nessas rendas adicionais que virão na forma de superávit comercial e não fazer as mudanças estruturais ou, pelo contrário, pode usar essa injeção de recursos para fazer a diversificação da sua economia, e aumentar o nível de investimentos em pesquisa e desenvolvimento que é o grande motor do aumento da produtividade".

Sobre as eleições de outubro, o diplomata afirma que as potencialidades brasileiras são mais fortes e atraentes do que os ciclos políticos.

Estamos em um momento bastante intrincado no planeta. Pandemia, guerra, inflação, crise econômica, populismo... Mas mesmo assim o senhor se mostra otimista. Quais são os motivos?

Estou olhando as coisas a partir de uma perspectiva brasileira. Há uma mudança estrutural no mundo, em que a principal fonte de crescimento serão as economias emergentes com grande contingente populacional e com renda média baixa. 

Quando o crescimento se dá a partir de um nível tão baixo, esse espaço entre o momento atual e o momento futuro é um espaço em que a renda adicional é direcionada para o consumo de alimentos e ao investimento em infraestrutura. David Ricardo, um economista do século XIX, dizia que países tinham vantagens comparativas. 

Quais são as do Brasil? O agronegócio e a produção de insumos para a indústria siderúrgica. Portanto, esse tipo de cenário internacional que se descortina é muito favorável para o Brasil. O que pode acontecer: o Brasil pode se reconfortar nessas rendas adicionais que virão na forma de superávit comercial e não fazer as mudanças estruturais ou, pelo contrário, pode usar essa injeção de recursos para fazer a diversificação da sua economia, e aumentar o nível de investimentos em pesquisa e desenvolvimento que é o grande motor do aumento da produtividade. As condições externas são muito boas para o Brasil. Não é para todo mundo, mas é para o Brasil.

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O senhor diz que o Brasil pode virar a Arábia Saudita dos alimentos. O que isso significa?

É isso mesmo, o Brasil vai virar a Arábia Saudita dos alimentos. Muitos países do Oriente Médio viraram países de alta renda - Catar, Emirados Árabes, Arábia Saudita, Bahrein, Omã - baseados na produção e exportação de combustível fóssil. No caso do Brasil, a principal fonte de receita será o comércio de alimentos. Num cenário em que países com grande população vão crescer muito, o Brasil está "fadado" a acumular sucessivos superávits comerciais ao longo do tempo. Isso ajudará o Brasil a ter os recursos necessários para fazer os investimentos em capacitação e requalificação da sua força de trabalho na sua neo-industrialização. Claro, se bem utilizados os recursos, afinal, o Brasil pode desperdiçar essa oportunidade assim como já desperdiçou em outras ocasiões.

"Num cenário em que países com grande população vão crescer muito, o Brasil está "fadado" a acumular sucessivos superávits comerciais ao longo do tempo"

Marcos Troyjo

CEO do Banco dos Brics


O que fazer para não desperdiçar? Onde precisamos mexer?

Reforma tributária. Não pela questão de quanto pagamos, mas, sobretudo, é preciso mexer na complexidade do sistema. Temos a questão do ambiente de negócios. Recentemente tivemos a lei da liberdade econômica, que diminuiu muito o tempo para abertura e fechamento das empresas, mas é importante prosseguir na agenda. O Brasil também precisa de mais acordos internacionais de comércio. É uma agenda que pode destravar, por exemplo, os investimentos em tecnologia e inovação. O Brasil está investindo, há algum tempo, 1% do PIB no setor. Os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) investem 2,5%. Isso que dá aumento de produtividade, quanto mais produtividade tivermos, mais teremos razões internas para aumento de renda, que é o que interessa ao Brasil. Ao longo do tempo o Brasil cresceu muito por conta do consumo do mercado interno, isso vai continuar, temos 210 milhões de habitantes, mas é preciso diversificar. O consumo do mercado externo vai nos ajudar e os investimentos em infraestrutura, que já estão contratados, também. E aí vem uma quarta força, que gera os maiores ganhos, que é o crescimento por inovação. Aqui, infelizmente, o Brasil não tem feito a sua lição de casa, são várias as dificuldades. É o que está faltando para termos um crescimento sustentado.


Como o senhor enxerga esse cenário de polarização política no país e de que maneira as eleições de outubro influenciam este cenário traçado?

No caso do Brasil, as potencialidades serão sempre mais fortes e atraentes do que as oscilações naturais dos ciclos eleitorais.


Então o senhor não enxerga nenhuma possibilidade de ruptura ou quebra de ciclo?

O Brasil está numa rota para continuar sendo um dos cinco maiores destinos de investimento estrangeiro direto.


"E aí vem uma quarta força, que gera os maiores ganhos, que é o crescimento por inovação. Aqui, infelizmente, o Brasil não tem feito a sua lição de casa, são várias as dificuldades"

Marcos Troyjo

CEO Banco dos Brics


O senhor é presidente do Banco dos Brics. Como o Brasil está sendo percebido lá fora?

O Brasil é uma superpotência agrícola, é uma superpotência ambiental, tem dimensões continentais, é um líder regional, é quarta maior economia do mundo emergente, é a oitava maior economia do mundo, portanto, não importa o tabuleiro em que você esteja jogando, o Brasil é um jogador importante. Em tempos mais recentes há uma questão adicional que é a dimensão da pujança brasileira como fornecedor de dois elementos fundamentais para você atacar a dupla crise: segurança alimentar e segurança energética. O Brasil tem a matriz energética mais limpa do mundo, tem uma adoção consolidada de combustíveis alternativos e, hoje, de cada cinco pratos de comida servidos no mundo, um é produzido no Brasil.

FONTE: AGAZETA.COM.BR

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