Saída dos EUA, medo de guerra civil e avanço do Talibã: entenda o que acontece no Afeganistão


País do Oriente Médio vê avanço de poder fundamentalista derrubado pelos Estados Unidos há 20 anos e pode relembrar o 11 de setembro em meio a confrontos armados

“A derrubada foi rápida, durou cerca de dois meses. Depois disso, os EUA passaram para a fase de reconstrução de um novo governo”, explica Nasser. Passaram-se quase duas décadas da formação de um novo poder (articulado de forma que representasse as diversas etnias presentes no país) e da ocupação das tropas ocidentais, que também tinham membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), até que em fevereiro de 2020 o governo do presidente republicano Donald Trump assinou um acordo com o próprio Talibã, estabelecendo um cronograma para a retirada de todas as tropas do país. 

A estimativa é de que mais de dois trilhões de dólares tenham sido gastos, mais de 2,3 mil soldados norte-americanos tenham morrido e mais de 100 mil civis tenham sido mortos ou feridos ao longo de toda a guerra. Quando o democrata Joe Biden assumiu, de forma simbólica, ele prometeu que até o aniversário de 20 anos dos atentados nos EUA, que ocorrerá dentro das próximas semanas, todos os soldados teriam saído do país.

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Avanço dos fundamentalistas não ocorre apenas pela saída das tropas

Apesar dos rebeldes terem aproveitado o momento de saída dos norte-americanos para avançar para capitais de províncias, as duas décadas de reestruturação do governo civil após a retirada dos insurgentes do poder foi marcada por uma série de períodos de avanço do Talibã em diferentes localidades do país, principalmente em áreas rurais. 

“Isso não é uma novidade, mas o fato é que com uma proposta de retirada não só das tropas americanas, mas de tropas ocidentais como um todo, eles têm uma motivação para ocupar mais espaços, principalmente os centros urbanos onde as forças de segurança do governo do Afeganistão não conseguem atuar”, analisa Samuel Feldberg, professor de Relações Internacionais da USP e especialista em conflitos internacionais. 

A busca pela retomada do poder somada à dificuldade que o governo tradicional tem de tomar conta de um país pobre com uma divisão de grupos étnicos tão acentuada auxiliam o avanço do Talibã.

“A dificuldade de governar é algo que também vem de séculos atrás, desde a criação do Afeganistão pelo império inglês ainda na época das disputas com o império czarista”, afirma Feldberg, que lembra que o interesse do Talibã sempre foi controlar o país. 

Essa motivação também é apontada por Nasser como um dos causadores do avanço tão rápido sobre o território. “Eles têm uma organização muito eficiente em forma de rede, articulações que vão de municípios de mil habitantes até as capitais. Eles não são mais bem armados do que os militares nem que a polícia do Afeganistão, mas são mais motivados e se organizam”, explica Nasser. 

Os insurgentes não negociam e sequer reconhecem o governo do Afeganistão e o fato de que os norte-americanos deixaram o país “às pressas”, sem fazer qualquer tipo de processo de transição, é apontado pelo especialista da PUC como problemático e contribuinte para a situação atual de avanço dos insurgentes.


Medo de governo severo faz com que moradores fujam

Um levantamento divulgado pela União Europeia na última terça-feira, 10, após seis dias de avanço dos insurgentes, estimou que 400 mil pessoas tenham deixado as próprias casas para fugir das forças. Boa parte dos moradores do norte segue para o Irã e aqueles que estão em outras localidades buscam abrigo em Cabul, capital do país, que registra aumento na quantidade de famílias desabrigadas em praças e nas ruas da cidade. 

A fuga ocorre por temores de uma guerra civil e, de acordo com os professores, pelo temor da volta dos fundamentalistas no poder. “Eles impuseram condições muito duras para a vida da população civil, e essas condições foram abolidas quando o Talibã foi derrubado em 2001 e foi instituído um governo civil afegão. 

Hoje quem está fugindo está assumindo que o Talibã vai voltar a governar as áreas em que eles estão vivendo com essas leis fundamentalistas islâmicas que não respeitam as mulheres e obrigam os homens muitas vezes a se engajarem nessas forças que estão controlando o território”, explica Feldberg.

A fuga, porém, não é uma opção para todos e se torna mais fácil para quem tem dinheiro. “Há uma diferença de classe social muito forte. Mulheres de classe média alta estão indo embora, as mulheres mais pobres não têm o que fazer. 

Algumas delas dizem ‘o governo Talibã vai ser péssimo, mas a gente quer que não tenha mais guerra. Se isso significar que não vai mais ter guerra, nós queremos [o comando Talibã] porque não queremos nossos filhos mortos. Tem muita gente que não apoia o Talibã, mas também não é contra porque as pessoas estão exaustas de guerra”, analisa Nasser. 

Ele explica que o medo de retaliação com um novo governo assumindo também incentiva a fuga. Um apelo feito pelo próprio Afeganistão à União Europeia em julho para que migrantes não fossem repatriados foi atendido pela Suécia, Finlândia, Dinamarca e a França, Países Baixos e Alemanha até o momento.

Novas intervenções internacionais não devem ocorrer

Questionado por jornalistas na última semana, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, não deu sinais de que voltaria atrás com a retirada das tropas do país do Oriente Médio e afirmou que os afegãos deverão lutar “por si mesmos”. 

Uma das justificativas dadas pelo democrata foi de que ao longo de 20 anos de ocupação do território os EUA equiparam e treinaram tropas afegãs, o que tornaria o Exército local capaz de se defender. Com mais de 60% do país tomado, cidades se rendendo e o cerco à capital Cabul ficando cada vez mais próximo, porém, o argumento dos norte-americanos não parece correto. 

“Se as potências ocidentais estão assumindo que treinaram e armaram as forças de segurança do Afeganistão e que agora eles têm condições de se opor ao Talibã e isso não estiver correto, o resultado vai ser uma derrubada de governo afegão e uma retomada do poder do Talibã”, analisa o professor da USP.

Um dos principais pontos nas negociações de paz entre o país norte-americano e outros membros da Otan com as forças do Talibã era o pedido de que, ao contrário do que ocorreu no começo dos anos 2000, as forças insurgentes não abrigassem terroristas que articulassem ataques contra outros países. Se o grupo fundamentalista tomar controle total do país, cumprir essa promessa pode ser uma forma de garantir que as forças do ocidente não intervenham mais na política local. 

“Eu acredito que eles vão cumprir a promessa, não porque são bonzinhos, mas porque eles são pragmáticos. Provavelmente, o Talibã vai dominar um território ainda maior do que eles dominavam antes do 11 de setembro. Em 2001, eles eram reconhecidos apenas pela Arábia Saudita e o Paquistão, hoje já têm apoio da Rússia, do Irã, da China, além do Paquistão. Então começaram a ter uma ascendência internacional. 

No fundo, o que o Trump disse e agora o Biden reafirma em discursos é: ‘se não tiver um grupo que nos ataque, boa sorte”, afirma Nasser. Ele lembra, porém, que a disposição geográfica do país, com uma série de cadeias montanhosas, pode facilitar o esconderijo de alguns grupos, principalmente dos que teriam se camuflado ou escondido em países vizinhos durante a ocupação norte-americana.


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